Raciocínio. Estratégia. Paciência. Abaixo, você conhece um pouco sobre a história de alguns dos mais tradicionais jogos de tabuleiro, que há milênios encantam gerações.
A hipótese mais aceita para a origem do Xadrez remonta à Índia do século VI da era cristã. Segundo essa hipótese, o Xadrez se origina do Chaturanga, jogo indiano que simulava uma disputa entre quatro exércitos, com a utilização de peças que representavam rei, elefantes, cavalos e carros de combate. Ou seja, o que caracteriza o Xadrez estava ali: um jogo de guerra em que o objetivo final é a captura do rei. Mas param aí as semelhanças, porque o Chaturanga era jogado com dados, o que o torna um jogo que depende da sorte. De qualquer maneira, a maioria das pesquisas aponta para uma longa história de adaptações até a forma atual do jogo.
O que se sabe, ao certo, é que, da Pérsia, o jogo se espalhou por todos os países árabes. Inclusive os primeiros grandes mestres do jogo apareceram entre esses povos. Seus nomes eram Al-Adli e Ar-Razi. Eles viveram e competiram em meados do século IX, na corte do Califa Al-Mutawakkil. Foram também esses jogadores que escreveram os primeiros tratados sobre o jogo, incluindo estratégias e táticas. Entre os árabes, o jogo já sofreu variações que o aproximavam bastante do jogo atual.
Na Europa, o Xadrez foi introduzido por duas vias: uma pelo sul do continente e outra pelo norte. Na primeira, os responsáveis foram os árabes – a partir de suas conquistas na Espanha e na Itália. Na outra, foram os vikings, que o teriam aprendido em suas incursões ao Mar Cáspio e à Rússia. O que não se sabe direito é como esse jogo era quando isso aconteceu. Na Europa ele continuou a se modificar e, quando o rei Alfonso X da Espanha escreveu um livro sobre jogos de tabuleiro no século XIII d.C., ele já descreveu um Xadrez com reis, rainhas, cavalos e torres. Todos os tipos de forças que se envolviam na política da época medieval estão representados no jogo: os monarcas, a igreja, a cavalaria. Os peões simbolizam a infantaria, e as torres, a forma mais comum de guerrear naqueles tempos: o cerco às muralhas dos castelos.
O Xadrez com certeza veio para o Brasil nas caravelas portuguesas que aqui aportaram em 1500. Afinal, nada melhor para passar o tempo, nessas longas e enfadonhas viagens, do que um jogo, não é mesmo?
A origem mais remota do Gamão é incerta e sua busca continua sendo motivo de pesquisa arqueológica. Até agora existem fortes indícios de que ele surgiu na Pérsia, onde um provável antecessor do jogo praticado na atualidade era conhecido pelo nome de Nard. A tese mais aceita pelos estudiosos é de que esse jogo foi inventado no reinado de Ardachêr, um rei da dinastia sassanida, que durou de 226 a 241 d.C.
A forma mais próxima ao Gamão atual, no entanto, certamente se originou do jogo romano Duodecim Scripta, que era conhecido nos primeiros séculos da era cristã. O escritor Suetônio cita que o imperador romano Claudius era um devoto tão fervoroso do jogo que publicou um livro sobre o assunto. O imperador também mandou instalar um tabuleiro em sua carruagem para jogar durante suas viagens.
Em Roma, no entanto, uma das características mais marcantes do Gamão moderno ainda não era conhecida: o movimento invertido das peças adversárias. Essa é uma característica que torna o Gamão único entre os jogos mais conhecidos. Embora existam outros jogos que a utilizem, nenhum sobreviveu à contemporaneidade.
Um dos nomes como o jogo era denominado pelos romanos se tornou o nome genérico de diversos jogos na Idade Média, quando eram chamados Tabula. A tradução dessa palavra latina é significativa: tábua. Designa o tabuleiro no formato ideal para jogos de mesa.
O Gamão tornou-se conhecido em toda a Europa e fez sucesso entre as classes consideradas nobres durante o período feudal, sofreu perseguições, a concorrência de um outro jogo muito famoso, o Xadrez, e teve períodos de alta e de baixa em sua fama.
No século XX, o jogo foi redescoberto, na década de 60, pelo chamado jet set internacional, onde figuras míticas como o príncipe russo Alexis Obolensky e o milionário Vermon Ball ajudaram a colocar o Gamão, se não como uma parte da cultura de massa, pelo menos como participante da realidade de uma elite mundial.
A história do Go parece ser muito antiga. Tem mesmo quem defenda que suas regras se mantêm praticamente inalteradas há 4.000 anos. Isso o tornaria o jogo mais antigo do mundo ainda em prática.
O Go surgiu na China, onde seu nome é Weiqi. Seu nascimento tem três versões aceitas por alguns estudiosos. Segundo a primeira versão, o criador do jogo seria o imperador Yao, que reinou de 2357 a 2256 antes de Cristo, e é considerado o fundador do império chinês. Já a segunda diz que o imperador que inventou o jogo seria outro, de nome Shun, que o teria inventado para ajudar no desenvolvimento intelectual de seu filho. Se for esta a versão verdadeira, a data do surgimento do Weiqi seria 2200 a.C. E tem ainda quem afirme que o jogo foi inventado por um homem comum, de nome Wu, que era vassalo do imperador Kieh Kwei, que reinou entre os anos de 1811 a 1767 a.C. Mas nada disso pode ser afirmado com segurança.
No século II depois de Cristo, o jogo passou a ser conhecido também na Coreia e, no século V, no Japão. Foi nesse país que o jogo foi denominado Go, nome que se espalhou pelo mundo. Foram também os japoneses que tornaram o jogo mais dinâmico, ao eliminarem o posicionamento obrigatório de peças no início da partida.
Ele virou uma verdadeira febre na corte imperial japonesa, em Quioto. Todos os samurais o praticavam, porque o jogo fazia parte de sua educação, sendo uma disciplina obrigatória na Academia Militar do Japão, ao lado do Zen e da cerimônia do chá. Os monges budistas também o adotaram em sua formação e foram responsáveis pelo aparecimento de mestres respeitadíssimos nessa verdadeira arte do convívio social. Mas foi por volta do século XVII que surgiram jogadores de categoria realmente excepcional, que consagraram o Go como uma atividade importante na vida nacional japonesa e na formação educacional desse país.
Como vários outros jogos, o Go também pode ser ligado à matemática, por sua possível utilidade como ábaco, e à mágica, por sua utilização na antiga arte de adivinhação chinesa. No Go, os focos de tensão se modificam conforme o desenrolar da partida, porque, ao contrário do Xadrez ocidental, não existe um único ponto de atenção, mas infinitos. As linhas do tabuleiro, sendo 19 na vertical e 19 na horizontal, formam 361 interseções, que são as possibilidades de um primeiro lance. A combinação do primeiro com o segundo lance já tem uma probabilidade de 129.960 jogadas. Até o final da partida, o número de probabilidades ultrapassa o número de átomos da Via Láctea.
Outro jogo de origem asiática que também foi muito presente na vida de certa geração de brasileiros é o Ludo. Este jogo foi introduzido em nosso país a partir da versão inglesa de um jogo muito mais antigo, e que é considerado o jogo nacional da Índia: o Pachisi. O objetivo do jogo é ser o primeiro a levar seus 4 peões a dar uma volta no tabuleiro, tentando chegar no ponto final marcado com sua cor, antes dos adversários. O Pachisi hindu utiliza quatro grupos de quatro peças e é comumente jogado por quatro pessoas. O tabuleiro tem um formato de cruz, com braços consistindo de 3x8 quadrados. Em cada braço, geralmente, encontram-se três quadrados marcados. As peças fazem o percurso pela trilha externa dos braços. A parte central de cada braço é a reta final de um dos jogadores. Cada um dos jogadores possui seu próprio ponto de chegada, onde todas as suas peças precisarão terminar para que ele ganhe o jogo.
A evidência mais antiga de um tabuleiro deste jogo nos foi legada pelo imperador mongol Akbar que, na segunda metade do século XVI, transformou sua corte em um tabuleiro de Pachisi incrustado de mármore. Esses tabuleiros de tamanho natural ainda podem ser observados nos seus palácios. Ele assentava no centro do pátio com suas cortesãs, enquanto dezesseis moças jovens, vestidas em quatro cores diferentes, movimentavam-se pelos quadrados, de acordo com os lançamentos dos dados.
Da Índia, o jogo foi para o Sri Lanka e Ilhas Maldivas, e avançou para a Indonésia, no oriente, e Europa, no ocidente. Em alguns lugares, ele é jogado somente por homens e, em outros, é jogado, na maioria, por mulheres e crianças. As pesquisas estão apenas começando, para se encontrar a variação e a distribuição deste jogo tão antigo. As primeiras regras publicadas na Europa datam de 1863, na Inglaterra. A empresa John Jaques & Filho, de Londres, registrou as regras do jogo com um nome ainda mais exótico: Patchesi. Na verdade, Patchesi, Pachisi e muitas outras denominações hindus parecidas são uma mesma forma de se referir ao número 25, o maior número que se pode somar no lançamento de dados no jogo hindu. A primeira versão que teve a denominação de Ludo surgiu em 1896. O nome vem de Ludus, “eu jogo”, em latim. Esta foi a variante que se tornou mais popular no mundo ocidental. O Ludo viajou pelo mundo, rapidamente, e acabou chegando de volta à Índia, onde era vendido nas lojas como sendo um jogo de tabuleiro europeu – uma situação curiosa para a história de qualquer outro jogo de tabuleiro.
Os indígenas criaram o primeiro jogo de tabuleiro praticado no Brasil, o Jogo da Onça, que ainda pode ser encontrado entre eles, tanto no Brasil quanto em outras partes da América do Sul, e data do tempo dos incas. Sua origem provável está ligada ao jogo Taptana, ou Jogo do Puma, que era praticado por esse povo, habitante dos Andes, desde 1200 d.C. até a chegada dos europeus à América. Este jogo foi retratado numa gravura da época em que os espanhóis dominaram os incas, na qual Atahualpa, o último de seus imperadores, joga com seus carcereiros, pouco antes de ser morto, em 1553.
Até hoje, existem vestígios do tabuleiro de Taptana em ruínas incas, no Peru. Entre os índios Mapuche, do Chile, um jogo similar era conhecido pelo nome de Komikan e, entre os Aymara da Bolívia, como Kumisina. No Brasil, o Jogo da Onça é conhecido por índios tão diversos quanto os Bororos, do Mato Grosso, os Manchineris, do Acre, e os Guaranis, de São Paulo. Já houve testemunhas de sua prática também entre a população de estados como Acre, Amazonas, Paraíba, Minas Gerais, Bahia e Paraná.
O Jogo da Onça é jogado num tabuleiro de 5 x 5 quadrados, com um apêndice triangular em uma das extremidades. Esta é a grande diferença entre este jogo e o Alquerque, que alguns estudiosos teimam em dizer que foi o seu precursor. Mas o conhecimento do jogo é tão disseminado hoje em dia na América do Sul que a possibilidade de ele ter sido criado antes de os europeus chegarem ao nosso continente é bem maior do que o contrário.
Além disso, existem jogos em outras partes do mundo que têm tabuleiros muito semelhantes ao do Jogo da Onça, e eles, com certeza, não foram adaptados a partir do Alquerque. Também existem vários outros jogos, com regras semelhantes, ao redor do mundo, apesar de usarem outro tipo de tabuleiro. Mas as regras envolvem estratégia e suas peças quase sempre representam animais da fauna local. Na Europa, existe um jogo muito parecido chamado Raposa e Gansos. O jogo europeu, no entanto, é jogado num tabuleiro em forma de cruz. Na Ásia, alguns jogos similares têm tabuleiros mais parecidos ao usado pelos indígenas brasileiros. Existem, inclusive, jogos que utilizam o mesmo tabuleiro do Jogo da Onça. As peças também variam, geralmente, em torno da fauna local. No jogo brasileiro, uma onça disputa com 14 cachorros. No Bagha Chal, jogo nacional do Nepal, são tigres e cabras; na Índia, leopardos e vacas. Outra variável, praticada na China e conhecida pelo nome de Camponeses e Senhores Feudais, usa personagens humanos, como o nome indica. As características do Jogo da Onça continuam únicas e ele é um dos poucos jogos de tabuleiro claramente originado nas Américas.
Em 2003, uma expedição realizada pelo Projeto Jogos Indígenas do Brasil – promovido pelo Instituto Sabino – a aldeias indígenas comprovou que os índios brasileiros ainda se lembram de como se joga o Jogo da Onça. Eles conhecem diversos brinquedos e brincadeiras, mas o único jogo de tabuleiro encontrado foi o Jogo da Onça, observado entre os índios Bororos, no Mato Grosso, os Manchineris, no Acre, e os Guaranis da ilha do Cardoso, no litoral sul de São Paulo.