Diário de Bordo | Viagens

Os produtos Origem percorrem um longo caminho para chegar até você. Às vezes, um caminho de milhares de anos. Muitos de nossos produtos são criações de antigas civilizações, resgatados e atualizados pela equipe de pesquisa e criação da Origem. Para isso, viajamos constantemente aos quatro cantos do mundo, redescobrindo jogos e objetos lúdicos de várias culturas. De volta ao nosso ateliê, pesquisamos os mais modernos conceitos de gestão, para desenvolver produtos que, além de divertir e encantar, sejam capazes de provocar insights e instigar outras viagens.

No mapa abaixo, você acompanha alguns roteiros que já trilhamos nessa busca e, logo abaixo, pode ler os relatos de Maurício de Araújo Lima sobre cada um deles:

Speculate

Atenas

Julho de 1995. No Benaki Museum, de Atenas, conseguimos informações valiosas sobre jogos gregos, inclusive da época bizantina. A curadora nos mostrou a foto de um jogo maravilhoso que está no Museu de Arqueologia de Iraklion, naquela ilha. Nas ruas de Atenas e de Istambul, pessoas jogando gamão nos mostram a força das antigas tradições.

Impressões de uma vista à Acrópole
Que sentimento especial é esse, que a todos contenta e aos sensíveis encanta? Que perfeita harmonia captada do eterno é essa que inspirou Byron e cativou Isadora Duncan? Que ares de ventos elísios singelos tão plenos de flama que inflamam a alma e inundam os sentidos e o sentimento aflora. Quem emanou tanta perfeição plástica flanou por aqui, acenou para o mundo com o ideal de Platão e a verdade de Sócrates. Eles que são nossos dogmas até hoje mentalizados pela onda magnética primeva que pulsa em cada bloco desses mármores da Ágora de Atenas. Eles que foram Hipócrates e criaram Fídias e viveram Pitágoras estão hoje nos templos eternamente perfeitos da Acrópole de Atenas.
E nós, que somos o fim da onda, a espuma em suas areias, embasbacados contemplamos tanta beleza estética e vibramos na mesma sintonia, aqui, agora do que sempre existirá a partir do que eles criaram.
Tecnologia, acudi nessa hora de decisões supremas. Como sintetizar tanta plasticidade para eternizar o tempo e concretizar a beleza? Como traduzir o indizível em emanações palpáveis e transmiti-las ao futuro em forma de versos?
Se o que quero já existe e contempla estático o passar dos humanos pelas batalhas tão duras de cada ego inflamado com os desejos de ora.

Agosto de 1995. Caretice. Loucura. Como duas faces de uma mesma ideia podem estar tão próximas quanto são distantes. Em Bruxelas o vetusto. Em Amsterdam o eterno. Os museus de Amsterdam são imperdíveis. No Rijksmuseum ver Rembrant. O Museu Van Gogh  é um anexo do primeiro e tem uma coleção fabulosa do mestre do tormento. Quase juntos. O clássico e o eternamente revolucionário sintetizando o mundo. Em Bruxelas, o Museu do Cinquentenário é de uma grandiosidade que até assusta. Lá é que está o exemplar mais antigo de um jogo completo já encontrado. De Bruxelas, trouxemos também um exemplar de um jogo inspirado nos jardins egípcios. Prova de que a criatividade humana nunca respeitou fronteiras.

Em agosto de 1995, Berlim era uma cidade triste. Pelo menos de dia, já que ainda não saí à noite e não sei se era por causa das férias de verão. Mas essa última hipótese é pouco provável porque se trata de uma metrópole. A região do antigo muro estava um verdadeiro canteiro de obras, mas ainda era difícil passar de um lado para o outro. A boa surpresa da cidade estava reservada para o finalzinho. Eu tinha deixado para ir aos arquivos da Bauhaus no último dia. E lá encontrei material interessante sobre o xadrez Bauhaus, com fotos, quem bolou e um detalhe que é genial de simples mas eu não tinha percebido. As peças têm o formato baseado no movimento que descrevem no jogo de xadrez. Legal, né?

O Museu Egípcio é um tesouro abandonado. Nas mãos dos milicos. Egípcios... Largado, amontoado. Um monte de coisas preciosas. Incomensuráveis. O tesouro da tumba de Tutankamon. O faraó menor que revelou a opulência do Egito Antigo porque sua tumba estava intacta. Preciosa joia à beira do Nilo. Pérola do mundo. Perfeita em seu despojamento. E reveladora por sua autenticidade.
El Cairo é um aglomerado de 15 milhões de pessoas numa cidade em que areia e deserto se mantêm à distância. Preparando o bote. Mas que oásis maravilhoso e que deserto inóspito e assustador. Repleto de mim e vazio de tudo.

O Egito vai sempre me lembrar poeira
do tempo e do deserto do Saara
As ruas de El Cairo
e os escombros nas fachadas de seus prédios
carcomidos pelo vento.

No final
a história é isso
ruínas e escombros
mas de uma beleza
solene
como a lua crescente nas dunas de Giza.

Boas-novas. Em Creta achei um jogo absolutamente novo. É o equivalente do Jogo Real de Ur da civilização minoana. Um belíssimo tabuleiro encontrado no Palácio de Cnossos, em Iraklion, na ilha de Creta, que se encontra no museu arqueológico junto com 4 peças. Mas as informações são precárias e nem o museu tem um jogo baseado nele. Muita sugestão para desenhos. Encontrei também peças para jogos. Creta foi perfeita para tudo isso.

O povo de Creta vive do passado
até hoje colhe os frutos plantados há 3.000 anos
Zeus é seu deus
Teseu seu herói
Poseidon o dono de seu mar

Viver de tanta história
é facílimo
mas tem seu preço

não ter futuro

só ruínas
de palácios carcomidos
pelo tempo e pela fúria
de seus inimigos.

Istambul é uma cidade vibrante. A gente sente que aqui reside todo bem e todo mal. Não é provinciana como Atenas, mas é rude como a cidade grega. Não é monótona como Roma e seu comércio é muito mais sofisticado do que o da capital italiana, muito centrado na moda. Istambul é muito oriental. Mas também é universal. No Grande Bazar, fiquei deslumbrado com os gamões em madrepérola, por 20 dólares. Mas eles fazem por 10 se a gente pechinchar. E tabuleiros de xadrez também. O bazar é fantástico. As joias, os tapetes, as porcelanas, os jogos, as caixas. Esse povo é acostumado a comerciar há milênios.

Em Londres, uma conversa com o Prof. Think

Origem – Para nós é muito interessante ter informações sobre jogos. Eu vi alguns jogos aqui no British Museum. O Senet, o Jogo Real de Ur e algumas peças de xadrez. Existem outros jogos?

Professor Think – Arqueológicos? Existem sim. Eu vou te mostrar. Há alguns anos atrás nós tivemos uma exibição aqui. Essas são fotografias dos objetos em exibição. Havia Pachisi, da Índia e do Sri Lanka. Dados da Índia. Peças de xadrez da Europa Oriental. Gamão e outros jogos do século XVII. Muitos exemplares de Mankala, com duas e três sequências de buracos. Este outro é de Chipre. Uma miscelânea de dados do Egito e do Oriente Médio. Peças de jogos romanos. Um Go e um gamão japonês. Tabuleiros do xadrez, mais mankalas, xadrez chinês, este é um jogo esquimó. Essa foi a exibição. Não há uma grande quantidade de material aqui. Nunca houve um curador do Museu Britânico realmente interessado em jogos. Por isso, nunca ninguém saiu à caça deles em particular. Nós temos algumas coisas importantes. Mas a coleção está longe de ser completa. Agora eu comecei a coletar jogos para o museu. Eu tenho algum dinheiro para comprar jogos importantes. Então eu estou tentando desenvolver a coleção. Tem muito material do Egito e da Mesopotâmia, da Grécia e de Roma. Mas são muitos dados e peças e temos poucos tabuleiros aqui.

Origem – O senhor acha uma boa ideia irmos a Oxford p/ ver o Ashmolean Museum?

Professor Think – É um museu muito interessante. Há algumas coisas lá. Não muito sobre jogos e não está tudo em exibição. Não existe museu neste país especializado em jogos.  Você tem de ir a todos e achará alguma coisa. Um bom museu é o Bethnal Green Museum of Childhood. Eles têm muitos brinquedos, como bonecas e casas de bonecas. Mas têm uma coleção de jogos em exibição. Muitos dos sécs. XVIII e XIX. Jogos de famílias inglesas. Mas não desses jogos antigos. E existem muitos jogos interessantes no Pitt-Rivers Museum, em Oxford. É uma boa coleção, um museu antigo. Mas eles têm coisas interessantes do século passado e de todo o mundo.

Fujiama

 

O monte Fuji
me fugiu
eu bem que soube
mas não vi

Eu bem olhei
mas me fugiu
não muito longe
mas encoberto
e mesmo as nuvens
não vislumbrei
e nos sonhos elas são diferentes

Por isso o descrevo
como o tenho no coração
branco pico inebriado de luz
a se refletir no lago inconsciente
de sua beleza
sereno por sua transcendência

Pensando bem
eu nunca quero ver o Fujiama
que eu não vi
mas refulge
ali
no coração
mas longe
quando o trem bala
corre em sua direção
e ele se esconde
orgulhoso e cortês
como os japoneses
por pudor
de desmentir
a minha visão
interior
e revelar
apenas um monte

Porque o Fujiama está em mim
como  Tóquio e Quioto nunca estarão
porque já os vi.

Está na tradução mais límpida
De um cálice de algo que se saboreia
Com o coração.

A Grande Maçã ou a grande trapaça? Que raça. Sem raça. Sem graça. Divina ou do espírito santo. Do filho da nunca. Da riqueza. Do Soho, do Noho, do Tribeca. De Robert de Niro. Da Little Italy. Do Chinatown. Do russo que atendia no Zabaar’s. E que queria ir para o Brasil. Como eu... Cansado do mundo e querendo dormir novos sonhos. Sem Deal. Sem Roosevelt ou Kennedy. Com Brasília e Kubitschek. Com Lúcio Costa até o fim do muro. E do Skyline de Nova York. NY. I love New York!
I like it! I shine here. And dear, I already know all of this. And show without snow.
Perfeitamente novaiorquino. Palavra perfeita assim. Em português. Integrada em si em mim em ti e Parati. Pra mim. Por todo esse Central Park. E Metropolitan. E Moma e Museu de História Natural. E ponte do Brooklin. E Woody Allen. E Andy Warhol. E Liz Taylor e Liza Minelli e Halston. E Mick Jagger, John Lennon, Paul McCartney e Yoko Ono. E Bianca Jagger. E Nélson Mota e Tom Jobim. E Paulo Francis. Manhattan Connection. Com o Brasil? Com o mundo. Com o universo. O início. E o fim de tudo e do livro que chega enfim, ao End, The end.

No Palais de la Découverte a grande sensação é ver professores de física, química, matemática dando uma de artistas. Os shows acontecem com hora marcada. Mas a diversão é garantida. Falar do Louvre é desnecessário, o importante é ir até lá. Certa vez fiquei indo ao museu todo domingo, durante quase seis meses, e posso dizer que deu para ver tudo rapidamente. Mas depois das obras que o transformaram num museu-show, haja admiração para descrevê-lo. O Museu D’Orsay é imperdível. Falar de tanta beleza plástica num local de arquitetura fantástica é empregar poucos adjetivos. Minha preferência ainda é pelas obras dos impressionistas. Impressionante. Estas pinturas, que ficaram tantos anos relegadas a um pequeno museu vizinho ao Louvre, o Jeu des Pommes, encontraram finalmente seu triunfo que nenhuma academia conseguiu apagar.
Mas Paris é muito mais. Paris é uma festa!

Em Roma é preciso saber ser turista. A maior área de lugares para se ser turista está lá. Afinal, eles foram um império sendo ao mesmo tempo uma cidade. E o espaço físico é sempre um reflexo da história. Tanto monumento, tanto museu, tanto mundo. Que dá pra suspirar. Ah! Fontana di Trevi! Ah! Coliseum! Fórum, (aquela colina) aquele prédio de Adriano, praça de Espanha, piazza Navona, água cristalina. Em cada cano, em todas esquinas. Catacumbas, Nova Roma e Trastevere. O parque, o lugar (Piccio) e a banda. Que tocava músicas nunca ouvidas. Mas apreciadas pelos meus ouvidos cansados de não saber nada. Mas sabendo de tudo.