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“O jogo é o espaço do imaginário”

terça-feira, 5 de outubro de 2010

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Nesta entrevista, a diretora da Origem, Mônica Sabino, fala sobre a relação especial das crianças com os jogos. Entre um caso e outro, Mônica nos mostra por que o jogo diz respeito, no fundo, à vida de cada um de nós.  Na foto acima, ela está em um pub em Lundy, uma ilha no Canal de Bristol, na Inglaterra. Por lá, o Arranha Céu, ou Terremoto, é jogado por crianças bem pequenas ou por adultos. Neste caso, as peças são de madeira náutica, leves e do tamanho de um tijolo. E, para as crianças, são do tamanho de uma caixinha de fósforos. Confira a entrevista!


1. De que forma alguns jogos da Origem relacionam com o universo infantil?


Os jogos oferecidos pela Origem despertam o interesse da criança porque podem conectá-la com um universo de brinquedos, brincadeiras e de relacionamento entre seus pares e com os adultos. Estamos vivendo uma época em que as amizades podem ser virtuais. Ok, mas é preciso não esquecer que o contato humano e o “olho no olho” são também muito atraentes e até mesmo, necessários.


Numa partida de Equilíbrio, por exemplo, que faz parte da Oficina do Pensar e Agir, vários jogadores podem jogar uma mesma partida. Trata-se de um jogo onde você vai se perceber lidando com o inesperado mas também com o previsível. E vai observar como o “outro” lida com estas “duas faces da mesma moeda.” Ou seja, você pode observar a si próprio e ao seu vizinho; onde são parecidos, onde são diferentes. Mas saber respeitar e buscar o respeito para si mesmo. E, como as partidas acontecem em momentos de descontração, tudo fica mais fácil.


Há crianças (e adultos também!) que, enquanto estão ganhando, não querem parar, mas quando começam a perder, querem encerrar a brincadeira. O jogo coloca limites e há que se respeitar as regras! Elas podem até ser alteradas, mas antes da partida começar e não com ela em andamento. E isso desperta o interesse da criança que percebe a possibilidade de se relacionar pela negociação, pela defesa daquilo em que acredita. Ou seja, é uma “brincadeira séria” porque pode ensinar muito. E é motivador poder brincar com seus pais e estes também apreciam interagir com o universo infantil. São revelações, curiosidades e situações que despertam a alegria e a descontração.


Certa vez, uma criança jogava Xo dou qi com sua mãe na loja da Origem. Trata-se de um jogo estratégico e que simboliza a luta pela sobrevivência na selva com seus atrativos e perigos. Cada jogador tem oito animais de forças diferentes, sendo que um animal mais forte pode atacar o mais fraco. Sem contar inúmeras outras curiosidades porque o jogo contém regras elaboradas e sofisticadas. Em certo momento, a mãe da criança a advertiu sobre ela não estar jogando corretamente porque poderia ter capturado uma de suas peças. E a criança simplesmente respondeu que “seu leão” não era obrigado a comer o “gato da mãe” e que ele estava achando mais legal ameaçá-la. Ops! Ou seja, a criança estava jogando mais do que correto! Ele tinha percebido que uma boa estratégia era desestabilizar o “gato da mãe” sem destruí-lo, mas apenas o “ameaçando.”


O jogo é o espaço do imaginário; é a representação simbólica de várias situações e permite com que crianças, adolescentes e adultos se encontrem para uma disputa saudável, para o reconhecimento de potenciais e limitações, da agressividade e da passividade, do ímpeto e da reflexão e por aí vai. E, sem dúvida, é melhor você lidar com os opostos num tabuleiro, de forma lúdica. Muito melhor do que exercitar no dia-a-dia os limites entre o bem e o mal ou fazer uso da força e da violência, inclusive psicológica, com seu filho, com seu pai, com seu colega de escola ou com seu irmão.


Os jogos da Origem têm também uma outra característica positiva, que é o emprego de materiais naturais na sua confecção. Vivemos uma era descartável, quando nada é feito para durar. Ao contrário, madeira, pedra, cerâmica, são materiais com vida e calor que se modificam com a entrada de luz e o uso. Eles são feitos para durar e as crianças percebem as alterações que sofrem.


Não me esqueço de uma criança que um dia entrou na loja e falou que queria ganhar um “brinquedo de pau.” Era mais uma dessas crianças nascidas na era do computador e que sentia falta de tocar em algo diferente de uma maquininha. Em outra situação, uma mãe me relatou as lembranças que tinha de sua infância, por utilizar jogos que eram bons passatempos para os dias chuvosos quando a garotada do bairro se reunia em festa, ao redor de um tabuleiro para uma partida de gamão ou do banco imobiliário.


2. Esses jogos revelam tradições. Você pode citar um deles, explicando como o hábito de jogar pode resgatar a sabedoria de diversas partes do mundo?


Dois produtos de que me lembro mais rapidamente para responder esta pergunta são o Caleidoscópio e o Mancala.


O Caleidoscópio porque fala das coisas belas, da transitoriedade da vida, de como o momento presente é o mais importante para ser vivido intensamente porque não irá se repetir. Assim é o caleidoscópio, um jogo de imagens simétricas e de reflexão por ser montado com peças coloridas e espelhos. O desenho que se forma deve ser apreciado com delicadeza porque, ao menor movimento, irá se desfazer e a probabilidade matemática de se repetir é próxima ao infinito. Foi inventado pelo físico inglês David Brewester e era usado no século XIX para definir padrão na indústria textil ou para fazer vitrais nas igrejas. Muitas crianças do século XX já fizeram o seu na escola ou viram os mais velhos fazendo.


Já o Mancala é um jogo que fala da ligação do homem com a natureza, de plantar para colher, de saber distribuir os frutos de uma colheita para que haja fartura para todos. Trata-se de um jogo estratégico onde vencerá o melhor mas com uma regra única entre os jogos conhecidos: se o seu adversário ficar sem sementes, peças do jogo, o oponente é obrigado a escolher uma casa para jogar que coloque sementes no campo daquele que está sem nenhuma semente. A prática desse jogo deve ser sempre difundida para lembrar aos jogadores de tabuleiro e da vida que é importante ser estratégico, habilidoso, jogar para ganhar mas sem destruir o adversário. Senão, além de perder a graça, perde-se o parceiro para outras jogadas.


3.Como a estratégia dos jogos propicia a formação de caráter e aprendizado pra toda a vida?


O jogo é uma brincadeira mediada por regras e é importante saber respeitá-las. Se for para adaptá-las isso deve ser feito antes da partida.
O jogo é carregado de simbolismos, de arquétipos e que são transmitidos de geração em geração. Muitos estão no inconsciente coletivo, ou porque o praticamos ou porque nos lembramos de alguém que o praticava. Ou porque não vivenciamos nenhuma destas situações mas parece que o conhecemos de algum lugar.