
O professor e escritor inglês Martin Raw fotografa a capital norte-americana há 40 anos. Enquanto caminha por Nova Iorque, registra cenas da vida cotidiana. A paisagem urbana oferece imagens da vida prosaica e abriga Ãcones da arquitetura mundial, como o Empire State Building; Chrysler, de estilo art-decô; e a estátua da Liberdade. Há três anos, seguiu a sugestão da esposa de focar um tema curioso agora transformado em exposição: as caixas d’ água que compõem a arquitetura da cidade - mais de 10 mil unidades inseridas na paisagem urbana junto aos objetos e signos tÃpicos da grande metrópole. As imagens foram feitas em Manhattan, a maioria ao sul da ilha. As fotos registram, por exemplo, prédios da Union Square, onde funcionou, entre 1962 e 1968, a famosa Factory, studio de Andy Warhol. A exposição apresenta 20 fotos que podem ser conferidas, com entrada gratuita, no perÃodo de 04/02 a 05/03, na sede da Origem Jogos e Objetos, em Belo Horizonte.

Direto das ruas
O curador da exposição, fotógrafo e professor da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), Tibério França, explica que Raw é o que se pode chamar de “street photographerâ€, ou seja, um fotógrafo de rua. Seu estilo de fotografar é conhecido como “straight photography,†tipo de fotografia documental que mostra uma visão direta do mundo. “Isso não quer dizer que suas fotografias são desprovidas de opinião ou senso crÃtico e estéticoâ€, esclarece. O estilo surgiu no inÃcio do século XX, quando as câmeras fotográficas se tornaram mais leves e compactas, permitindo ao fotógrafo deslocar-se pelas cidades com agilidade e discrição. “Naquela época, os fotógrafos tentavam igualar a fotografia à pintura. A fotografia direta faz surgir as caracterÃsticas que tornaram o meio uma forma de expressão tão popular hojeâ€, completa o curador.
França destaca que a exposição apresenta recorte especÃfico da cidade de Nova York, apontando para objetos que podem ser considerados esculturas contemporâneas, devido à dimensão e robustez de suas construções. De acordo com ele, Raw cria imagens com referência à geometria do concretismo, porém, com uma roupagem atual, marcada pela cor e planos calculados. “A exposição tem uma maturidade estética caracterÃstica dos fotógrafos contemporâneos das grandes metrópoles. Aponta para a praticidade e sustentabilidade, solução das cidades pensadas e planejadas, criando, com isso, a inserção crÃtica necessária para fazer do visitante da mostra um viajante ávido e curioso que circula pelas ruas de Manhattanâ€, avalia França.

Sustentabilidade
“Caixas d´água de Nova Iorque†é o resultado da pesquisa de Raw sobre os enormes tonéis localizados em inúmeros prédios da cidade. Ele verificou que as caixas d´água existem desde meados do século XIX, como meio prático e útil para fornecimento de água à população. São de madeira, ecologicamente corretas e representam uma solução que respeita o meio ambiente e a sustentabilidade, palavras tão caras ao homem do século XXI. “Não se sabe quem foi este grande defensor da natureza, porque não se conhece seu inventor. A maioria é feita de madeira, excelente isolante que mantém a água em boa temperatura. O movimento da água evita o congelamento da mesma em invernos rigorosos, ou seja, é uma solução extremamente econômica. Existem, ainda, caixas d’água de alumÃnioâ€, conta Raw.
As caixas d´água foram inventadas porque sistemas internos tradicionais precisariam de muita pressão, podendo romper os canos. Funcionam através de um mecanismo simples de bombeamento da água para dentro do tanque e a gravidade a distribui de acordo com a necessidade dos andares das edificações. Quando a boia abaixa em determinado nÃvel, a água é novamente bombeada. Desde 2006, todos os prédios de Tribeca, região ao sul da ilha, são obrigados a ter caixa d’água externa, considerada, hoje, um componente sofisticado das edificações. “Elas se distinguem e, ao mesmo tempo, são parte integrante e em harmonia com as linhas da cidadeâ€, afirma Raw. Chamam a atenção não só pela estética peculiar, mas também como personagens de histórias interessantes, revela o fotógrafo: “Apenas duas empresas familiares fazem a manutenção de todas e não deve ser nada fácil limpá-las. Até revólveres já foram encontrados dentro das caixas d’ águaâ€.Â

Martin Raw
Raw nasceu em Bath, Inglaterra, em 1950. Morou em Londres de 1972 a 2003, quando se mudou para São Paulo. Formado em Psicologia, em Oxford, fez doutorado em Tabagismo, em Londres. É consultor independente de saúde pública, professor convidado da Universidade de Nottingham (Inglaterra) e da Unifesp (São Paulo). Publicou o livro “How to Stop Smoking and Stay Stoped†(Editora BBC, de Londres), em sua quarta edição pela Publifolha. Raw praticamente não sai de casa sem uma câmera. A primeira, uma Rolleiflex, ganhou do pai aos 11 anos. Seus temas favoritos são a paisagem, a arquitetura e as pessoas. Atualmente, fotografa com uma Cannon Powershot. Nesta primeira exposição, que tem curadoria de fotógrafo Tibério França, apresenta suas imagens de caixas d’água de Nova Iorque.

Origem Jogos e Objetos
A exposição conta com o apoio da Origem Jogos e Objetos, empresa mineira que recebeu, em 2009, o Prêmio Parceiros da Escola Integrada (Prefeitura de Belo Horizonte) e em, 2010, o Prêmio FINEP Inovação (Ministério da Ciência e Tecnologia), um reconhecimento à originalidade de sua trajetória na área cultural. A premiação ratifica e divulga esforços inovadores realizados por empresas, instituições cientÃficas e tecnológicas (ICTs) e inventores brasileiros, desenvolvidos no Brasil e já aplicados no paÃs ou exterior. Inédito no paÃs, o trabalho da Origem Jogos e Objetos é realizado há mais de 20 anos, incluindo a pesquisa, criação, desenvolvimento e comercialização de jogos e objetos de todo o mundo, destinados a todas as faixas etárias, que resgatam tradições e promovem a convivência.